sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A política e seus dilemas

De um lado, creio que as pessoas devem ser livres para fazer o que quiserem sem ser imediatamente reprimidas, desde que não pratiquem violência física contra outros (se há outros tipos de violência, devem ser reprimidos após um processo judicial, não no ato). De outro lado, vejo que a autonomia do eu é uma das quimeras mais imbecis (sobretudo no caso daqueles que se preocupam em celebrar essa suposta autonomia), e que remover tabus equivale a abrir a caixa de Pandora.

O texto de Pedro Sette-Câmara do passado domingo, Os dilemas políticos, foi para mim uma grata surpresa. Isto ocorreu-me por se tratar da colocação genuína de problemas políticos ao nível de uma reflexão séria, e não apenas como reforço e apologia de posições previamente adoptadas.

Não concebo como alguém que se interesse mais a fundo pela política (isto é, que não considere como política apenas o que sai publicado na mídia) não tenha dilemas congêneres aos de Pedro Sette-Câmara. Para essas pessoas, pensar o político não tem nada a ver com ter para já respostas prontas e simples capazes de atender às complexidades dos temas políticos. É inevitável se defrontarem com tensões, contradições e dificuldades, como, por exemplo a tensão entre liberdade e autoridade; a legitimação do poder; as relações entre democracia e liberdade; a melhor forma de governo e o melhor regime; relações entre política e direito; a tensão entre o ser e o dever ser; etc.

Já passei por estas tensões. Não as eliminei e nem creio que o farei, em definitivo, algum dia. Já tive uma postura mais militante, já fui simpatizante do integralismo (por um breve período, há quase 10 anos atrás), ao mesmo tempo em que flertava com o conservadorismo e o liberalismo; adepto do anarco-capitalismo/libertarianismo tempos depois (minha última utopia, poderia talvez dizer, também passageira). Actualmente, creio estar mais estabilizado num conservadorismo com tempero liberal. Isso, porém, não me fecha à reflexão e investigação sobre a política. Defendo minhas ideias, mas não com a rigidez com que fazia há alguns anos, pois estou ciente que ainda teho muito o que aprender sobre política, e tenho ainda muitas questões não respondidas, como as seguintes:

1-Qual é exatamente a natureza do poder?
2-Quais as relações entre Política e Direito?
3-Existe alguma forma de governo superior em si? Se sim, qual é ela?
4- Existe algum sistema de governo superior em si? Se sim, qual é ele?
5-Quais os sistema e forma de governo ideais para o Brasil?
6-O federalismo é de facto viável no Brasil? Nosso país manter-se-ia numa estrutura mais descentralizada?
7-Como evitar que democracia degenere em demagogia e regime de massas?

Há muito mais questões por responder, que poderiam ser aqui expostas de modo mais ordenado mas, por ora, ficam apenas estas, a título de exemplos. Isso tudo merece ser tratado com mais propriedade e pormenor noutra altura.
É muito bom que o Pedro Sette-Câmara tenha consciência da importãncia destas questões, e queira realmente refletir sobre elas. Irá aperfeiçoar-se intelectualmente, certamente. Mas, á guisa de conclusão, creio poder fechar com ele quando diz, no último parágrafo do texto,

De um lado, vejo que é difícil não pensar nesses dilemas. De outro, intuo que é fútil pensar neles. Se há uma vida eterna, só nos resta tentar ser bons e fazer o possível para não sujar muito as mãos de sangue.

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